Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Nas páginas: Doce Gabito - Francisco Azevedo


Foi muito gratificante ler "Doce Gabito". Minha história com esse livro é daquelas de amor instantâneo, mas que demorou algum tempo para se consumar. Acompanhei os preços até encontrar uma promoção com valor razoável, hesitei um pouco (será que valerá a pena?), no entanto, acabei comprando. Veio de uma livraria física de algum lugar misterioso do sul. Fiz o pedido depois de uma porção de dias, encontrei um pacote jogado na garagem, quem fez essa essa entrega misteriosa até não sei exatamente. No embrulho de papel pardo, estava o meu Gabito.

O livro narra uma parte da vida de Gabriela utilizando a premissa de que a própria personagem estaria rememorando e escrevendo sua história. Então acompanhamos ora as memórias que ela escreve, ora sua vida no presente. Já no início percebemos que a trajetória de Gabriela não foi fácil e as tragédias vão se enfileirando à medida que o livro avança, como se a pobre garota não merecesse uma vida feliz. Entretanto, apesar das tristezas, Gabriela persiste em preservar uma forma peculiar de enxergar o mundo, que acaba por se tornar o elixir capaz de tornar a vida suportável e até mesmo feliz, mesmo que isso possa parecer impossível em vários momentos. Essa criatividade persistente personifica-se na figura de Gabito, o amigo imaginário (ou não) que acaba por se tornar uma espécie de guia para Gabriela. Gabito é uma entidade que corresponde ao saudoso escritor Gabriel García Marquéz, que, por acaso, é xará de Gabriela.

Por fim, digo que, embora tenha sido consideravelmente diferente daquilo que imaginei, quando me apaixonei pela sinopse do livro, a história de Gabriela é interessante e instigante e triste. Talvez a escrita de Azevedo possa incomodar, por causa das repetições, mas o livro é muito mais interessante do que alguns possíveis vícios de escrita do autor. Conheçam essa duplinha, conheçam Gabi e Gabito.
Compartilhe:

sábado, 31 de outubro de 2020

Nas Páginas: Em busca de Watership Down - Richard Adams

Estava perdido em uma manhã nublada de sábado, ouvindo o álbum mais recente do Sam Smith, Live Goes, quando dei de cara com a faixa 16, Fire on fire. Imediatamente, me lembrei de uma leitura que fiz em dezembro de 2019, cuja adaptação para série tem essa música como tema. O livro é Em busca de Watership Down, logo fui buscá-lo na estante e que sensação gostosa ter essa história de novo nas mãos!



Motivado por esse sentimento, decidi reviver as 5 marcações que fiz nesse livro (tive uma pequena decepção quando descobri que não fiz anotações sobre o livro em um papel avulso, como costumo fazer). Antes de qualquer coisa, preciso dizer que Watership Down é uma história de coelhos. Embora sejam humanizados, com atitudes e pensamentos racionais, eles pussuem hábitos, cultura e uma forma de enxergar o mundo de acordo com sua condição de coelhos (não tenho dúvidas de que todos os coelhos agem exatamente dessa forma). Isso tudo é feito de maneira bastante verossímil e, em alguns momentos, chegamos a perder a noção de que aquilo é uma história de fantasia.

A primeira marcação é na página 28 e está em um dos momentos decisivos da história. Nessa página, Avelã, o nosso protagonista, comunica que, junto de Quinto, deixará o viveiro onde vivem. Para compreender o impacto disso, é essencial ter em vista que os coelhos são animais normalmente medrosos e frágeis, que prezam pela segurança acima de tudo. Afastar-se do viveiro, para além das redondezas,  é uma atitude impensável, pois significaria praticamente se entregar aos predadores, que não são poucos, ou aos perigos incalculáveis que o mundo além dos limites do viveiro representa. Ainda assim, Avelã e Quinto decidem partir. Mas por quê? Porque Quinto teve uma visão, e previu que uma grande catástrofe cairia sobre o viveiro. Apesar de terem tentando alertar a todos sobre a possibilidade desse futuro apocalíptico, quem acreditaria na previsão de um coelho tão insignificante quanto Quinto? Diante disso e enfrentando seus próprios instintos, eles decidem partir por si mesmos (coragem que eu mesmo gostaria de ter).


A segunda marcação está na página 121. A essa altura, a história já avançou bastante. Embora a ideia fosse partirem sozinhos, já que inicialmente ninguém deu ouvidos ao alerta, Avelã e Quinto acabam por formar uma pequena comitiva para encontrar um novo lar (algumas semelhança com A Sociedade do Anel?). Juntos e um pouco vacilantes, eles deixaram a comodidade do seu lar e enfrentaram o mundo. Não foram poucos os obstáculos, mas o arco que trata do sinistro viveiro do coelho Prímula merece destaque. Na página 121, ocorre a revelação da verdade por trás desse estranho viveiro que acolheu a comitiva por algum tempo. O tal viveiro, um lugar de fartura e paz, não passa de uma armadilha traiçoeira. Embora os coelhos aparentem viver bem, eles não passam de uma espécie de "gado de corte" de um fazendeiro. Ele espalha armadilhas pelo terreno a fim de pegar alguns coelhos, mas com o cuidado de não prejudicar a existência do viveiro. O mais impressionante é que os coelhos que vivem ali, sabem disso e aceitam essa situação absurda, mesmo que ela possa acarretar a morte de seus companheiros. Além disso, aceitaram a comitiva com a única intenção de deixá-los a mercê das armadilhas (maldades disfarçadas de boas intenções, alguém já viu isso em outro lugar?)


A terceira marcação está em uma parte em que a história já se desenvolveu bastante. Nossos coelhos já encontraram Watership Down, que é uma colina agradável e perfeita para se viver, e lá começaram a construir o seu lar. No entanto, estabelecer um novo viveiro não é tarefa fácil. Mesmo tendo escolhido um terreno favorável, os coelhos, liderados por Avelã, precisam enfrentar problemas, como as variações climáticas, a hostilidade de outros animais e, sobretudo, a falta de fêmeas. Pode parecer uma questão curiosa, mas como um viveiro prosperaria sem fêmeas? Sim, a comitiva era composta apenas por coelhos machos (creio que esta seja uma crítica que possa ser feita ao livro: as personagens femininas - ou, no caso, fêmeas - são relegadas a um papel simplório e frustrante). Diante disso, Avelã traça planos para solucionarem esse problema (a preocupação também é amorosa, mas recai principalmente sobre o fato de viabilizar a procriação). É num momento dramático de um desses planos que está a penúltima marcação.


Nessa marcação, está a cena em que, ao tentar resgatar um grupo de coelhos que era mantido em cativeiro em uma fazendo próxima, Avelã é atingindo por um tiro de espingarda. Embora esteja muito feriado, ele consegue se esconder, mas se separa de seus amigos. É um dos momentos mais tensos de todo o livro, já que todos pensam que Avelã está morto e precisam, apesar de toda a descrença e desilusão, continuar suas vidas. No entanto, Quinto demonstra mais uma vez seus dons sobrenaturais e encontra, seguindo suas visões e pressentimentos, o agonizante Avelã.


A última marcação está na página 375, nela temos a despedida da gaivota, Kehaar. Ele foi um importante aliado para os coelhos, principalmente, no segundo plano para trazer fêmeas ao viveiro. Seguindo esse plano, o corajoso Topete se infiltra em um viveiro próximo, que era submetido a um regime de absurda opressão e medo constante (fascismo, é você?). A partir disso, os coelhos conseguiram minar a rigorosa guarda do viveiro e fugir com as fêmeas, que já se demonstravam profundamente descontentes com o modo de vida do viveiro. Sem a ajuda de Kehaar, o plano intrincado nunca teria dado certo.


Embora essa seja a última marcação, ainda há um acontecimento grandioso que encerra a busca por Watership Down (que história de fantasia que se preze não tem uma batalha final?). Relembrar essa jornada foi emocionante e parece que pude me sentir ao lado desses coelhos mais uma vez. Apesar de a busca deles ter chegado ao fim, fiquei com a sensação, mesmo agora, apenas ao relembrar alguns trechos da história, de que a minha busca por Watership Down está longe de terminar (na verdade, acho que estou até um pouco perdido).







Compartilhe:

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Nas páginas: Menino de lugar nenhum - David Mitchell


De forma muito sintética podemos dizer que o livro "Menino de lugar nenhum" trata da vida do jovem Jason Taylor ao longo do ano de 1982. Quando temos 13 anos, que é a idade de Jason em 82, vemos o mundo de uma forma ligeiramente distorcida e com o Jason também é assim, talvez até um pouco mais desconjuntada do que normalmente acontece com garotos dessa idade. Aos 13, o tempo passa de uma forma desconjuntada, os acontecimentos, mesmo os simples, parecem assumir proporções gigantescas e há uma sensação opressiva de que a vida continuará daquela forma para sempre. Os mesmos problemas, a mesma rotina, as mesmas dificuldades se repetindo por uma interminável sequência de anos.


Jason trava ao falar (ele não gagueja, mas trava em algumas palavras, embora sejam coisas diferentes, algumas pessoas costumam confundir), sofre bullying na escola e pressente que há alguma coisa errada com sua família, embora ele não seja capaz de encontrar um sentido maior nos desencontros que ocorrem frequentemente (entre os pais e entre Jason e sua irmã mais velha). Talvez esses sejam problemas que assolam uma boa porção de garotos dessa idade, tanto os problemas de popularidade e as agressões morais quanto a incapacidade de compreender o mundo dos mais velhos, sim, eles vivem em um mundo aparentemente impenetrável para quem tem 13 anos. Por isso, é quase certo que os leitores, mesmo os que tiveram êxito social na juventude, não sofreram bullying e tiveram uma família imune a desencontros, vão acabar se identificando com Jason Taylor.


Gostaria de destacar dois aspectos da história que mais chamaram minha atenção. O primeiro é o constante empenho de Jason em suprimir suas características que poderiam ser encaradas como "bichice". É triste perceber como a pressão social e a necessidade de aprovação dos outros são capazes de prejudicar a vida de um garoto e fazer com que ele esconda quem ele realmente é. Já a segunda trata da relação de Jason com a literatura. O talento de Jason para a poesia (uma bichice sem tamanho, de acordo com os cascas-grossas do colégio) acaba sendo uma das características que ele se esforça para suprimir, objetivando não dar mais um motivo para ser marginalizado pelos outros alunos da escola, afinal de contas, já havia motivos mais do que suficientes. Ao longo do livro, percebe-se que a poesia é algo intrínseco à personalidade de Jason, como um desejo que surge espontaneamente. Mesmo com todo o elaborado esforço para mantê-la escondida, a poesia simplesmente faz parte de Jason e se manifesta subitamente em sua mente. Um dos capítulos mais interessantes do livro, "Solário", enfoca exatamente esse talento. Nele, Jason encontra, por acaso, uma espécie de guia para sua poesia, Madame Crommelynck. As conversas entre os dois envolvem temas como a natureza da arte, da poesia e o significado do tempo. Essas discussões são intrigantes e nos fazem perceber o quanto a ingenuidade e a sinceridade podem estar próximas do conhecimento.


Por tudo isso, gostaria de agradecer ao David Mitchell por ter escrito algo tão surpreendente e ao mesmo tempo tão próximo e familiar para todos nós (sabe aquele papo de encontrar o universal no particular?). Agradeço por ter conhecido Jason Taylor e por ter sentado ao lado dele rumo à escola, mesmo ele sendo considerado um completo verme.

Compartilhe:

terça-feira, 17 de março de 2020

Nas Manhãs: Coisas de 2019


Declaro por meio desse comunicado oficial que 2019 foi o ano das ausências. Estive longe do blog e já estou questionando até mesmo a desculpa que sustentei durante tantos meses. A falta de um notebook foi o real motivo dessas ausências? É possível que tenha catalizado alguma outra razão, mas culpá-la inteira e exclusivamente por todas essas ausências é simplificar demais a questão. Enfim, não cabe mais estruturar uma argumentação que sustente uma justificativa mais realista sobre o que houve, mas tentar compensar as postagens perdidas.

Gostaria de fazer um panorama sobre minhas leituras de 2019, assim como fiz com o ano de 2018. Em geral, foi um ano de poucas leituras, mas que significaram bastante. Mais uma vez fracassei vergonhosamente em cumprir o projeto feito no início do ano. No entanto, dessa vez me senti menos culpado. Reconheço que a minha vontade de ler alguns livros que apareceram no projeto de 2019 espantosamente. Alguns não me interessavam mais e a leitura deles, ao longo dos meses, pareceu-me cada vez mais improvável, como é o caso de A História Secreta e Kafka à Beira Mar. Digamos que a vontade de lê-los está adormecida.

Uma descoberta de 2019 que vale a pena mencionar foi a do mangá Happiness. Li os 6 volumes publicados pela editora Newpop numa febril compulsão otaku. Trata-se de um mangá de vampiros, mas com uma abordagem diferente que me surpreendeu. Até então eu não havia lido algo sobre vampiros com esta abordagem, mesclando elementos do mundo estudantil japonês e aspectos violentos e sexuais, sem qualquer piedade do leitor. O único comparativo que fui capaz de fazer foi com o filme suíço (que também é livro e está na minha prateleira) Deixe ela entrar. Há certas semelhanças no clima das histórias e no visual das vampiras, contudo, as paridades terminam aí. Já estou aguardando uma promoção do volume 7 que foi lançado recentemente. Amazon, ajuda aí!?

Ainda sobre as HQs, houve o início do meu romance com Black Hammer do Jeff Lemire. Que quadrinho incrível e diferente! Agora, já em março de 2020, já li o terceiro volume e a coisa continua incrível (em 2019, só li os dois primeiros volumes). Possivelmente, haverá uma postagem inteira para essa preciosidade. Além disso, teve uma onda de HQs que se não me encantaram, me intrigaram. Destaco Funhome, com sua densa trama familiar cheia de literatura, e Duas Vidas, que é daqueles quadrinhos feitos pra fazer nosso coração gelado derreter.

No finalzinho de 2019, aconteceu a tão aguardada leitura de Em busca de Watership Down. Esse livro despertou meu interesse desde o lançamento, tanto pela capa curiosa quanto pela sinopse que já vendia um livro com coelhos protagonistas. Foi uma leitura gratificante que me proporcionou um tipo experiência semelhante com a que tive ao ler Os Pequeninos Borrowers, por causa da escrita bastante descritiva e do cuidado ao retratar o cotidiano de seus peculiares protagonistas. Depois dessa leitura, os coelhos jamais serão os mesmos para mim, nem tão amáveis e nem tão bobos. Ao longo do ano, li Neve na Manhã de São Paulo, que me fez encarar alguns aspectos literários brasileiros de forma diferente, mais humanamente interessantes, e contribuiu para que eu puxasse um pouco de saco do Oswald de Andrade ao falar do Modernismo. Em 2019, reencontrei Jorge Amado no velho trapiche; viajei com o Arthur Less para fugir dos problemas, que nem eram tão ruins assim; acompanhei as três gerações de ursos polares que se perderam e se encontraram um sem-número de vezes; fui estraçalhado pela fera vergonhosa de Salman Rushdie; saldei dívidas com a literatura mundial e dormi uma ou duas noites na casa do sono.

Muitas coisas aconteceram em 2019. Embora ausente, estive administrando, da melhor forma possível, esses acontecimentos. É muito recompensador refletir sobre essas leituras e o desejo de falar detalhadamente de cada uma é irrefreável. Talvez (quero dizer muito provavelmente), algumas apareçam por aqui com postagens mais detalhadas sobre minhas histórias com elas.
Compartilhe:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Projeto de Leitura 2019


É o dia de renovar a postagem que inaugurou o blog e fazer novos votos de leitura para 2019. Neste ano serei menos ambicioso, mas ainda sim, desafiarei a minha determinação, que não está lá grandes coisas. Ao elaborar essa lista, orientei-me principalmente pelos autores que eu gostaria de ler e busquei livros que despertassem em mim um desejo de leitura mais duradouro, para que o risco de eu perder a vontade de ler fosse menor. Pois então, vamos aos livros:

um


Decidi, ainda em 2018, que meu primeiro livro de 2019 seria do Amós Oz. Ele morreu dia 28 de Dezembro e, apesar de eu ter lido apenas um livro dele (e ter uma história interessante para contar acerca disso), fiquei bastante chateado. Tenho outros livros do Oz e quero ler todos eles, mas o escolhido foi Meu Michel (Companhia das Letras - 2002 - 304 páginas) que, inclusive, está listado entre os 1001 livros para ler antes de morrer.

dois


Mais um Murakami. Em 2018, eu inaugurei meu relacionamento com o Murakami lendo O Incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de Peregrinação e foi uma experiência muito legal. Na época (foi o meu primeiro livro de 2018), eu não possuía a edição física de nenhum livro do Murakami, mas agora eu já possuo e não poderia deixar passar a oportunidade de ter uma relação carnal com algum livro dele. O escolhido da vez foi Kafka à Beira Mar (Alfaguara - 2008 - 576 páginas) que, por coincidência, também está entre os 1001 livros para ler antes de morrer.

três


Meu terceiro autor escolhido foi Salman Rushdie. Desde quando li Haroun e O Mar de Histórias que persigo os livros do Rushdie em toda promoção que aparece. Depois de já ter acumulado alguns, acho que é hora de ler mais um dele. No entanto, ainda não decidi qual será. Inicialmente, eu havia pensado em ler A Feiticeira de Florença (Companhia das Letras - 2008 - 403 páginas), mas refletindo com mais cuidado, Vergonha (Companhia das Letras - 2010 - 376 páginas), que está entre os 1001 livros para ler antes de morrer, e Dois Anos, Oito Meses e 28 Noites (Companhia das Letras - 2016 - 336 páginas) surgiram como opções muito interessantes.

quatro


É a vez de um livro de uma autora de quem nunca li uma página sequer. Seja bem vinda, Donna Tartt. Escolhi começar não pelo queridinho de grande parte do mundo, O Pintassilgo, mas pelo pitoresco A História Secreta (Companhia das Letras - 2014 - 520 páginas).  Não sei muito sobre a trama desse livro, mas uma trama envolvendo um grupo de estudantes já desperta minha curiosidade, além do surpreendente fato de ele estar entre os 1001 livros para ler antes de morrer. Espero que minha relação com a Tartt seja próspera e duradoura depois desse aqui.

cinco


Serei direto: O Legado da Família Winshaw (Record - 2002 - 560 páginas) Minha história com o Jonathan Coe sofreu com os caminhos perversos do destino. Em primeiro lugar, eu gostaria de ler Bem-Vindo ao Clube, mas esse livro está absolutamente esgotado em todas as livrarias que existem no mundo. Aí, em segundo lugar, também o segundo desencontro. Motivado em parte pela indicação entusiasmada do skoober Higor, me interessei pelo A Casa do Sono. Oh inocência! Comprei, o livro veio todo oxidado, solicitei a troca, o novo exemplar veio ainda mais oxidado; enfurecido, devolvi o livro e pedi meu dinheiro de volta. Fiquei sem. Então, diante de tantos obstáculos, acho que é hora de consumar essa relação com o Coe.

seis


Não poderia deixar de fora minha leitura anual de A Roda do Tempo. Em 2018 li O Dragão Renascido e foi sensacional, sério. Esse terceiro volume, para mim, fecha uma espécie de arco em que Rand descobre, questiona (na verdade, nega) e, por fim, confirma que ele é mesmo o dragão renascido. Vários personagens, sobretudo as garotas, se desenvolveram de forma empolgante e assumiram de vez seu protagonismo na saga no terceiro volume. Minha ansiedade pelo Ascensão da Sombra (Intrínseca - 2015 - 991 páginas) não poderia ser maior. Segundo o Jeffu, esse é o melhor volume entre os já lançados aqui (até o sexto) e eu só quero voltar para essa história e não sair mais de lá.

sete


Quero ler Pepetela neste ano. Tenho dois livros dele, O Tímido e As Mulheres (Leya - 2014 - 304 páginas) e Lueji (Leya - 2015 - 464 páginas). Será um desses dois. O primeiro parece ser uma trama mais corriqueira, contemporânea, talvez, uma história sobre o cotidiano, já o segundo é uma trama mais épica, o subtítulo "O nascimento de um império" é capaz de fazer as pernas bambearem. Além disso, tempos, no primeiro, um homem protagonista e, no segundo, uma mulher. Deixarei nas mãos do destino a decisão a escolha sobre qual lerei.

oito


HQs. Em 2018, eu me propus a dar continuidade na minha leitura de Sandman e falhei miseravelmente. Cobicei iniciar a leitura do primeiro volume de Promethea e fracassei vergonhosamente. No entanto, na proposta de ler 4 graphic novels, não me saí tão mal. Das 4, li 3 e foram leituras muito acima da média. Diante disso, além de trazer Habibi (Quadrinhos na Cia - 2012 - 672 páginas) como herança de 2018, proponho a leitura de mais 3 graphic novels: Repeteco (Quadrinhos na Cia - 2016 - 336 páginas), Maus (Quadrinhos na Cia - 2013 - 296 páginas) e Umbigo Sem Fundo (Quadrinhos na Cia - 2009 - 720 páginas).

nove


É o momento de cumprir promessas. Eu havia prometido que leria Murilo Rubião: obra completa (Companhia das Letras - 2016 - 288 páginas) e farei isso neste ano. Desde a minha postagem "Lembra do Realismo Fantástico?" que o Murilo me olha torto, pelo simples fato de eu ter enrolado a leitura de seu único livro. Essa desavença precisa acabar! Já paguei minha dívida com o José J. Veiga e é hora de ficar quite com o Rubião também.

dez


A maior herança de 2018: Crime e Castigo (Editora 34 - 2009 - 562 páginas). Preciso ler! Preciso ler! Preciso ler! Dostoiévski, por favor, possua a minha vida, ela é todo sua. Espero do fundo do meu coração de malandro conseguir ler Crime e Castigo neste ano, caso isso não ocorra, não por culpa minha, claro, mas por obra de pura maldade do destino, continuarei colocando esse livro em cada projeto de leitura que eu fizer ao longo de todos os anos da minha vida.
Compartilhe:

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

No Uai Lipe: Coisas de 2018



Quase um ano de blog. É assustador pensar o quanto o tempo passou rápido e na forma tortuosa como a vida nos trouxe a 2019. Apesar de, em algumas vezes, sentir como se estivesse escrevendo apenas para mim mesmo, o blog cumpriu com excelência a tarefa de fazer com que eu conhecesse mais a mim mesmo e pudesse "falar"sobre coisas que amo (mesmo que não tenha muitas pessoas lendo). Mesmo me frustrando algumas vezes por não conseguir produzir conteúdo no ritmo em que gostaria, o Uai Lipe soube como dosar a cobrança e o incentivo, o que me fez trilhar, sobre livros, filmes, séries e reflexões, um 2018 muito interessante. Talvez, a trilha de 2018 não tenha sido mais produtiva ou valorosa do que a dos outros anos, mas o  blog possibilitou que eu tivesse um pouco mais de consciência daquilo pelo que passei. Pesquisar mais sobre os livros que li, sobre os autores, registrar as minhas impressões no blog, fez com que minhas leituras fossem mais significativas. Lembro-me com mais propriedade dos livros que li neste ano e isso é muito recompensador.

Vencido a debilitante melancolia e nostalgia do fim de ano, sinto-me capaz de refletir sobre as conquistas e as frustrações que aconteceram neste blog em 2018.

Em primeiro lugar, uma conquista que me deixa muito satisfeito, foi a maratona do Oscar. Consegui assistir a todos os indicados na categoria de melhor filme e escrever sobre quase todos (7 dos 9). E fiz tudo isso antes mesmo da noite de premiação! Foi uma experiência que quero repetir para sempre e a cada ano. Espero que neste ano eu consiga também assistir a todos os indicados e, dessa vez, consiga escrever comentários sobre cada um.

Em segundo lugar, está o ambicioso projeto de leituras de 2018. Nesse caso, foi um misto de sucesso e fracasso. consegui cumprir a leitura da maior parte dos livros propostos, mas alguns importantes ficaram de fora. Fiquei devendo: um livro do Dostoiévski (apesar de ter lidos umas 10 páginas de Crime e Castigo, não continuei); a tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos (desculpe, Zafón); O Livro do Juízo Final da Connie Willis (saber que esse livro faz parte de uma série e a enxurrada de críticas negativas me desmotivaram); a conclusão da trilogia do Mar Despedaçado, com o livro Meia Guerra do Joe Abercrombie (eu tentei e tentei e tentei, mas meu espírito não estava para fantasia, infelizmente); a graphic novel Habibi do Craig Thompson (ela está na minha mesa, mas não foi a hora dela); a continuação da minha leitura de Sandman e a leitura de Promethea (espero que eu não tenha pesadelos) e, por fim, a leitura de Atlas de Nuvens do David Mitchell. Talvez, eu devesse ficar triste por causa de tantas dívidas comigo mesmo, mas não estou. Dessa vez, surpreendentemente, a satisfação foi maior do que o peso das derrotas.


Os dois grandes fracassos vêm em terceiro lugar. A leitura conjunta de Wicked, que ficou até sem um desfecho no blog, e a leitura do livro Histórias para Crianças do Issac Bashevis Singer. Embora eu tenha terminado a leitura de Wicked no prazo e cumprido o cronograma, os outros participantes desistiram e não terminaram a leitura (apenas o Matheus conseguiu chegar até o fim, mas com algumas semanas de atraso). Tenho que admitir que o livro, apesar de ter momentos muito interessantes, não faz jus a tudo o que eu havia lido, assistido e ouvido acerca dessa história. Elfaba, desculpe, mas seu livro não é bom. Senti o impacto desse fracasso, e até um pouco de culpa, mas superei e já estou querendo o volume 2 de Wicked (mentira!). Já a leitura de um conto por dia do livro do Bashevis foi um fracasso daqueles que vai fazer com que eu me torne um fantasma e venha assombrar as pessoas, caso eu não termine esse livro neste ano. Li poucos contos e acabei deixando o livro para lá. Uma das razões para que isso tenha ocorrido, além da minha pura e simples falta de foco, foi a minha decepção com alguns contos. Parte deles é muito simples, repetitiva e parece ter sido escrita para ser ouvida e não lida. Sim, mais dois fracassos vergonhosos para a conta de 2018.


Outro fracasso foi eu não ter conseguido lidar com minha lista de TV, com séries e animações. Eu simplesmente não soube como manter essa lista atualizada e acabei deixando ela de lado na maior parte do ano. Embora ela continue no menu do blog, o que está listado ali não condiz com tudo o que assisti em 2018. Já as listas de leituras e filmes estão plenamente atualizadas e lindas, amém. Espero que neste ano eu possa encontrar uma forma de manter a lista de TV atualizado e operante.

Gostaria de comentar também sobre as postagens de que mais me orgulho de ter feito. Em primeiro, a postagem "Lembra do Realismo Fantástico?". Ela me deu um trabalho muito gostoso para escrever e fez com que eu me lembrasse de livros que li há bastante tempo e de incluir alguns livros e autores, que estavam esquecidos, na minha lista de quero ler. E o livro de um desses autores, uma autora, na verdade, foi a minha melhor leitura do ano. Apesar de eu não ter conseguido fazer uma postagem que fizesse jus ao quanto amei A Casa dos Espíritos, preciso deixar claro que eu gostei, adorei esse livro. Sou muito criterioso para marcar um livro como favorito no Skoob, tenho apenas 2 favoritados lá e há muito tempo A História Sem Fim foi meu único livro marcado como favorito, agora, A Casa dos Espíritos também está lá com seu coraçãozinho. Outra postagem de que gostei de fazer foi a de "7 filmes em 1 semana". ao longo de uma semana vi 7 filmes dos anos 80 e 90 junto com alguns amigos do facebook. Foi uma experiência legal rever ou conhecer esses 7 filmes e escrever pequenos textos sobre cada um deles.



Espero que em 2019 este blog continue sendo meu companheiro e que eu possa repetir o que me trouxe satisfação, encontrar novas formas de sucesso e transformar os fracassos em combustível para novos acertos. Foram 35 postagens publicadas, algumas ficaram só no rascunho, e desejo que em 2019, eu possa fazer ainda mais. Certamente haverá outra maratona do Oscar e, em alguns dias, o projeto de leituras 2019 aparecerá por aqui.

Sejamos felizes!


Compartilhe:

sábado, 29 de dezembro de 2018

Nas Páginas: Todos Os Dias Mortos de Dois Mil e Dezoito


Natal é uma época em que quase tudo tenta fazer as pessoas felizes, mas (para mim) pode ser complicado manter a mente longe dos já famosos espíritos do natal. Alguém poderia dizer que o espírito do natal é mais uma daquelas entidades que só querem nos ver felizes, no entanto, no meu caso e no de uma parcela significativa das pessoas, o espírito de natal vem junto com uma aura que mescla melancolia e felicidade, nem sempre na mesma proporção.


Embalado por essa aura, lembrei-me de 3 livros que, de alguma forma, se relacionaram com os meus natais. O primeiro foi uma leitura que fiz em 2008 (há 10 anos!!!), O Sussurro das Bruxas, da autora Anna Dale. Um livro juvenil que, segundo minhas próprias anotações, é muito legal. O fato é que não me lembro da trama do livro, mas pode ser que ela trate de uma busca por uma folha roubada de um grimório poderoso. Lembro-me de um plot twist: enquanto todo mundo pensava que o ladrão estava interessado no conteúdo da página 47, suponhamos, que , na verdade, ele cobiçava o que estava na página 48, no verso da folha roubada. Entretanto, não é pela trama que esse livro está aqui. Lembro-me com clareza do momento em que terminei a leitura dele. Era manhã de natal e uma época com menos preocupações, acordei um pouco antes do tradicional momento de abrir presentes da minha família e li as últimas páginas do livro. O que me surpreendeu foi que as últimas palavras do livro são: FELIZ NATAL. Será que a tal Anna Dale é muito mais do que uma escritora de livros juvenis? Talvez uma profeta? Quando li aquelas palavras finais, senti que estava fazendo a coisa certa, na hora e da forma certas. Não seria uma simples coincidência, mas uma espécie de confirmação de que até aquele 25 de dezembro de 2008, mesmo com muitos momentos desconjuntados, as coisas acabaram por se alinhar e me trouxeram àquele "feliz natal" como uma espécie de carimbo que dizia: respire, tá tudo certo até agora. Uma bobagem, né? Mas isso passou pela minha cabeça.


O segundo livro é O Livro dos Dias Mortos do britânico Marcus Sedgwick. O título um pouco mórbido se refere aos dias entre o natal e o ano novo, as 5 noites em que os espíritos dos mortos estão mais próximos do nosso mundo. Por coincidência, estamos exatamente nesses tais dias e foi inevitável falar sobre esse livro. Sobre a trama dele só me lembro que há um menino órfão e uma mistura de ciência e magia. O que tenho para contar é que quando eu estava lendo esse livro, em julho de 2013, deitado em uma cama desconfortável de um hospital, uma médica tentou me animar puxando conversa perguntando o título do livro. Assim que eu respondi, ela botou uma cara arrependimento no rosto, o que fez com que eu também me arrependesse imediatamente por estar lendo aquele livro, naquele momento e naquele maldito hospital. Eu não havia me dado conta de que talvez fosse inadequado ou pouco auspicioso ler O Livro dos Dias Morto enquanto se está no hospital, e muitas pessoas estão questionando sua postura diante de um tratamento, digamos, desconfortável e que poderia se estender por tempo indeterminado.


Por fim, o livro Antes do Baile Verde, da Lygia Fagundes Telles, e seu conto Natal na Barca. Eu vi em algum lugar que havia um conto de natal da Lygia nesse livro e como havia uma edição antiga dele perdida na minha estante de livros perdidos, decidi resgatá-lo e ler o tal conto no dia 25. O conto Natal na Barca é daqueles que captam apenas um recorte de um processo mais longo e complexo, terminamos o conto sem conhecer o início do tal processo ou mesmo seu desfecho. A trama trata de uma mulher meio descrente da vida que, em plena noite de natal, está fazendo a travessia de um rio em uma barca e ela só quer fazer esse translado em paz. No entanto, na barca, ela encontra uma mãe com seu bebê. Foi inevitável uma comparação com Maria e Jesus recém nascido, ainda mais depois de: "Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga." Depois disso, para mim, a mulher já virou Maria. Mas, aos poucos, a medida que a mulher foi revelando seu passando abruptamente humano e injusto, a comparação com Maria foi se diluindo na mulher incansável que surgiu. Perto do fim, temos um surpresa que me fez fechar o livro e pensar: esse povo vai ter um natal pior do que o meu! Mas aí, no último instante, temos outra surpresa milagrosa. O que pensar desse conto e, sobretudo, dessa surpresa derradeira? Ainda não sei. Talvez que a capacidade de acreditar, de ter fé (não uma fé religiosa, mas uma fé mais primitiva) seja capaz de nos trazer coisas melhores? Ainda não sei e, talvez, eu precise de um pouco mais dessa fé para me aproximar de algum pensamento que faça sentido.

Sejam felizes e tenham, pelo menos, um pouco de fé em vocês mesmos.
Compartilhe:

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

No Desafio: 4 livros em 4 dias - O Quinze, Garp, Cabo de Vassoura, O Gigante Enterrado



Aceitei o desafio do Gabriel Márcio Xavier de publicar no Facebook sete livros (na verdade, publicarei só 4) que eu amo (na verdade, o critério de escolha não foi exatamente amor), sem explicações e sem análises, apenas a capa (na verdade, vou publicar uma foto do livro). A cada dia a partir de hoje, dia 8, até o dia 11 publicarei um livro e desafiarei um amigo para fazer o mesmo. Embora no Facebook não tenha explicações acerca das escolhas e do critério que usei para escolher os livros, aqui no blog haverá uma explicação e um breve comentário sobre cada um dos 4 livros e sobre a forma que usei para escolhê-los.

O critério que escolhi foi baseado naquela tradição dos casamentos. Sim, nada mais justo do que usar a simpatia para trazer sorte nos casamentos para trazer sorte para minha eterna união com a literatura. Assim, os quatro livros seguirão a seguinte regra: something old, something new, something borrowed, something Blue. Teremos, então, um livro velho, um livro novo, um livro emprestado e, por fim, um livro azul.

Dia 08-11-2018 / Quinta-feira / Livro Velho



Título: O Quinze
Autora: Rachel de Queiroz 
Ano da publicação: 1930 
Ano da edição: 1983
Editora: José Olympio
112 páginas
Leitura: Dezembro/2009

Esse exemplar veio de um sebo da minha cidade chamado "Letras no Jardim", inclusive o livro possui um carimbo do sebo na primeira página. A leitura desse livro foi solicitada pelo meu professor de Literatura Brasileira da faculdade, quando nossos estudos chegaram à segunda fase do modernismo. Houve um sorteio e para meu grupo saiu O Quinze, da Rachel de Queiroz, entre livros como Capitães de Areia e Menino de Engenho. Na época, eu não encontrei essa profusão de edições que há dessa obra atualmente a venda e o que me restou foi o exemplar surrado e velho do sebo. Encarei, pois haveria um seminário. Finalizei a leitura em Dezembro de 2009 e avancei cada página do livro procurando referências ao número 15, além da óbvia referência à grande seca de 1915. Minhas lembras da história são parcas. Sei que temos uma viagem sofrida de uma família de retirantes que viaja do sertão nordestino buscando condições melhores de vida. A busca por alimento é o que tenho de mais nítido na memória acerca dessa história. Curiosamente, lembro-me de uma mandioca venenosa que, possivelmente, causa ainda mais sofrimento àquela família.

Desafiado: Ross. Ele será o desafiado porque estava no meu grupo na faculdade que precisou ler esse livro. Infelizmente, acho que o Ross não leu o livro na ocasião.



Dia 09-11-2018 / Sexta-feira / Livro Novo



Título: O Mundo Segundo Garp
Título Original: The World According to Garp
Autor: John Irving
Ano da Publicação: 1976
Ano da edição: 2013
Editora: Rocco
607 páginas

O Mundo Segundo Garp é minha leitura atual e dizer que ela está caminhando vagarosamente é ser bondoso, ela está seguindo muito, muito devagar. Encontrei o John Irving na dedicatória do livro As fúrias Invisíveis do Coração e, depois de alguma pesquisa, descobri que o Garp é seu livro mais conhecido e premiado. Nele, acompanhei até agora a saga de Garp e de sua mãe, Jenny. Os dois decidiram ser escritores, mas de formas e por motivos bastante distintos. Na verdade, Jenny, apesar de ser enfermeira e de gostar disso, decidiu apenas escrever sua autobiografia, Uma Suspeita Sexual. Ela nunca quis seguir uma carreira literária, mas se sentia com algo importante a dizer. Jenny era uma mulher excêntrica e, talvez, muito progressista para sua época, prova disso é a concepção pouco usual de Garp. Assim, por incorporar essas questões, a autobiografia de Jenny acabou por se tornar o símbolo de um grande levante feminista e de uma onda de empoderamento feminino. Jenny se tornou um ícone desses movimentos. Já Garp, até onde já li, teve uma trajetória literária mais tortuosa. Ele decidiu se tornar escritor para se casar com a filha de seu treinador de luta livre, já que ela havia lhe dito despretensiosamente que gostaria de se casar com um escritor. A ideia surgiu daí, mas, ao longo dos anos, ela foi se moldando e fortalecendo ou fraquejando, em alguns momentos. Ainda estou na metade do livro e, por enquanto, Garp publicou seu primeiro romance, Procrastinação, que obteve sucesso mediano, e um segundo romance, O segundo Fôlego do Corno, que foi um quase total fiasco. Creio que a obra magna do nosso protagonista está na segunda metade do livro. Escolhi o Garp para o posto de "Livro Novo" por ser minha leitura atual e por consistir de uma história sobre um escritor, que é algo que tem chamado minha atenção ultimamente.

Desafiado: Jeffu. Ele será o desafiado porque um trecho do livro lembrou-me um conto que o Jeffu escreveu há uns anos. A protagonista do tal conto era uma prostituta (ela se chamava Amélia?) e, quando Garp e Jenny passam uma temporada em Viena, há a participação de uma prostituta muito elegante, que contribui de forma decisiva para a definição do tom que conduziria a autobiografia de Jenny. Infelizmente, esse arco da prostituta tem um desfecho trágico. Torço para que o Garp use isso em um dos seus romances que aparecerão na segunda metade do livro.



Dia 10-11-2018 / Sábado / Livro Emprestado



Título: Memórias de Um Cabo de Vassoura
Autor: Orígenes Lessa
Ano da Publicação: 1969
Editora: Ediouro Jovem
102 páginas
Leitura: Fevereiro/2011

Tenho muitas lembranças que envolvem esse livro. Desde quando aprendi a ler, minha mãe se empenhou em fazer com que eu o lesse. Infelizmente, eu resisti a todas essas tentativas. Eu me lembro de até ter tentado ler, no entanto, o livro não "aconteceu" para mim naquela época. Em minha casa nunca houve fartura de livros, na verdade, eu me lembro de 2: uma edição antiga de E O Vento Levou, que minha mãe parecia nunca terminar de ler, e o humilde Memórias de Um Cabo de Vassoura. Ainda não tive vontade de ler o  primeiro, entretanto, já depois de crescido e consciente de que uma das minhas missões aa terra era ler o livro sobre o cabo de vassoura, tomei a iniciativa, peguei o livro emprestado com minha mãe e li em Fevereiro de 2011. No livro, acompanhamos literalmente a jornada de um cabo de vassoura, talvez seja uma espécie de coming of age de um cabo de vassoura. Eu diria que é uma espécie de autobiografia que vai nos guiando pelos momentos amargos e felizes, que nunca imaginamos que a vida de um cabo de vassoura pudesse ter. Enquanto o próprio cabo nos conta sua história, há várias oportunidades de refletirmos sobre a exploração de madeira e o uso consciente dela. Gostaria de destacar alguns momentos celebres em que o cabo de vassoura, enquanto madeira e com várias possibilidades para o futuro, imagina quais "profissões" ele pudesse ter, talvez se tornar uma obra de arte esculpida pelo Aleijadinho ou o casco de um navio que viajaria o mundo, o que certamente seria mais emocionante do que se tornar um caixão de defunto, por exemplo. Gosto de ressaltar que imagino que, para quem já foi árvore, mesmo aquelas que não rendem muito lucro para os homens, mas ainda assim uma árvore, deve ser absurdamente frustrante ser condenado a passar a vida varrendo o chão.

Curiosidade: quando li, em um momento da história, percebi certas semelhanças entre alguns elementos da história com o filme Toy Story, da Pixar. Seria pura coincidência?

Desafiado: Matheus. Ele será o desafiado pelo simples fato de eu achar que esse livro combina muito com ele. Matheus, se ainda houver uma vaga na sua lista de futuras leituras, leia Memórias de Um Cabo de Vassoura.



Dia 12-11-2018 / Segunda-feira / Livro Azul


Título: O Gigante enterrado
Título Original: The Buried Giant
Autor: Kazuo Ishiguro
Ano da Publicação: 2015
Editora: Companhia das Letras
396 páginas
Leitura: Abril/2016

O livro azul! Acho que não existe no mundo (ou, pelo menos, no Brasil)  um livro mais azul do que essa edição de O Gigante Enterrado. Minha história com esse livro é simples, porém gratificante. Em primeiro lugar, vi a capa e ela me conquistou imediatamente com seu ar de fantasia. Em segundo lugar, o autor chamou minha atenção, um japonês que se mudou para a Inglaterra ainda criança, premiado e aclamado (na época, ele ainda não havia ganhado o nobel). Em terceiro lugar, a sinopse intrigante. Aí, eu senti a confirmação de que precisava daquele livro. Fiquei alguns dias de olho nas promoções, e por obra de algum benfeitor sobrenatural, o desconto veio e eu comprei e comecei a leitura assim que ele chegou. A história acompanha a viagem de um casal de idosos, Axl e Beatrice, que sai em busca de seu filho de quem mal se lembram. As lembranças, a memória individual e coletiva, têm papel importante na trama. A tal falta de lembranças não é um evento acidental. Ela supostamente é causada por influência de uma dragoa que produz uma nevóa que, ao se espalhar por toda a região, estaria fazendo com que as pessoas esquecessem, com que elas perdessem suas memórias. Daí, surgem importantes questionamentos, como o papel das lembranças felizes e tristes na construção e manutenção das relações sociais, familiares e até  em aspectos intrapessoais. Como ficaria o amor ou mesmo o ódio em  um mundo quase sem lembranças? O que justificaria esses sentimentos? Ao mesmo tempo que o valor das recordações é evidenciado, há também o outro lado, o papel do esquecimento, de deixar as coisas no passado, para que seja possível a continuidade de relações já desgastadas por equívocos e decepções antigas.

Desafiado: Higor. Será o desafiado da vez pelo simples fato de esse livro ser de um ganhador do Nobel.
Compartilhe:

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Nas Páginas: Samanta Schweblin, Garp, Alarcón, Capote e até um pouco de Boyne


Outubro não passou totalmente em branco, li o primeiro conto da revista Granta volume 1 (em português). Um conto do Daniel Alarcón, chamado O Rei Sempre Está Acima do Povo. O conto me surpreendeu pela escrita e me desagradou pelo tamanho. Sabe aquelas histórias que mereciam ser romance, mas nasceram conto? Pois esse é o caso do conto do Alarcón e, por isso e um pouquinho também por ser o livro favorito de um amigo, acabei comprando um romance dele, À Noite Andamos em Círculos (é claro que ser um livro da Alfaguara, minha recente paixão editorial, também contou). Li também o conto Despedida do Primeiros Contos do Capote (será que o primeiro conto de um livro chamado Primeiros Contos é o primeiro conto que o Capote escreveu na vida?). Conto interessante, simples e com algumas sutilezas nas entrelinhas.


Em Outubro, também comecei a ler meu primeiro John Irving, O Mundo Segundo Garp. John Irving chegou até mim por meio do John Boyne. Sim, um John trazendo outro. O livro As Fúrias Invisíveis do Coração, do Boyne e que li em Agosto, foi dedicado ao John Irving, até então desconhecido para mim. Ao logo do Fúrias, o protagonista Cyril lê uma versão holandesa de O Mundo Segundo Garp (Cyril é Irlandês). Então, depois da leitura do Fúrias e da nada sutil dica da dedicatória do Boyne, pesquisei sobre o Irving e não pude deixar de ler o Garp (os 4 livros do Irving que encontrei a venda por aqui me interessaram, mas as edições descuidadas da Rocco - papel branco e fino, letra miúda - acabaram me desmotivando. Enfim, depois de solicitar uma troca porque o livro chegou avariado e da decepção com a edição, comecei a ler o Garp. Ainda não terminei (ha-ha-ha), estou em algum lugar próximo da metade do livro, mas posso dizer que estou gostando. Garp é alguém que decidiu ser escritor e sua história vai delineando os elementos que fomentariam, de forma desconstruída e embaralhada, seus escritos literários. O livro não está me agradando 100%, tenho que citar um trecho, que acabei de ler, sobre a mãe sem nome de um amigo do filho de Garp como algo, digamos, desagradável, fora isso, a experiência tem sido interessante. O que eu gostaria de comentar é que uma característica do comportamento do Garp e algumas decisões e pensamentos dele remeteram a outro livro que li há pouco tempo, o último antes da escuridão total sem leituras (desculpe, King).


Garp é superprotetor com os filhos. Ele se preocupa absurdamente com seus filhos. Ele tem medo de coisas improváveis acontecerem, acidentes, coincidências e a uma simples insinuação de que o universo pode, talvez, estar cogitando uma fatalidade, Garp já repassa todas as implicações desse suposto desastre. Por exemplo, o filho diz que vai de bicicleta para a casa do amigo e Garp já imagina que um adolescente recém habilitado que estava bebendo vinho barato em um posto de gasolina viria em alta velocidade, não veria a placa de pare e passaria por cima da cabeça de seu filho esmagando seus miolos no asfalto quente (isso me lembrou a música Oitavo Andar da Clarice Falcão). Essa superpreocupação muitas vezes injustificada me lembrou a distância de resgate do livro homônimo de Samanta Schweblin. Nele, a personagem Amanda tem essa mesma obsessão por proteção e dela vem a ideia de distância de resgate. Ela seria a distância variável que separa Amanda da filha, distância de resgate seria a distância que Amanda precisaria percorrer para impedir que algo aconteça à Nina. Amanda é obcecada por calcular a distância de resgate e, segundo ela mesma, Nina está quase sempre mais longe do que deveria.


Em A Distância de Resgate, temos uma história misteriosa que nos é contada a partir de relatos dentro de relatos, num intricado jogo de narradores e pontos de vista. É uma história sobre uma contaminação por agrotóxicos em uma região rural. No entanto, não temos uma visão geral disso, só a dos personagens principais, de Amanda e sua filha, Nina, e de Carla e seu filho, David. Não posso deixar de mencionar o lado sobrenatural e místico da história que, apesar de se confundir um pouco com as tentativas do povo local de driblar a ignorância, é um importante elemento da história. Começamos o livro com muitas dúvidas, as incertezas vão diminuindo ao longo da história e, no fim, acho que 30% delas ainda permanecem. Terminei o livro há 3 meses, mas ainda não fui capaz de avaliá-lo no Skoob. Certamente, eu gostei, só não consegui mensurar isso em estrelas ainda.

Continuarei lendo a segunda metade do Garp e espero retomar um ritmo, pelo menos, um pouquinho mais acelerado de leitura em Novembro.
Compartilhe:

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Nas Páginas: Tirza - Arnon Grunberg


Tirza foi minha terceira leitura da editora Rádio Londres. A capa segue o mesmo padrão de Stoner e antes mesmo da leitura, já imaginamos o protagonista Jörgen com o rosto que estampa a capa. Já recebemos uma espécie de prévia do protagonista, uma amostra não muito confiável, afinal de contas, não temos certeza se é o Jörgen  mesmo que está ali. Ainda assim, é incontrolável fazer apostas sobre a personalidade dele a partir da capa. Seria Jörgen um nerd frustrado? Seria ele um erudito? Mesquinho? Invejoso? Triste? Medroso?

Passadas minhas indagações acerca da capa, que vieram antes de eu ter o livro em mãos, na minha onda de comprar livros da Rádio Londres, não pude deixar Tirza de fora da minha vida, ainda mais que ele havia sido relançado com uma edição revista e com acabamento em capa-dura. Comprei e já dei um jeito de colocá-lo no projeto de leituras para 2018 (não queria que ele escapasse de forma alguma). Pois bem, em alguma semana perdida de Julho, eu li Tirza.

Em primeiro lugar, gostaria de comentar sobre o clima da história. Há durante todo o livro uma atmosfera de tensão. Não uma tensão qualquer, mas um clima de que qualquer um dos personagem vai perder a cabeça e fazer alguma coisa terrível mais cedo ou mais tarde. Entre eles, Jörgen é o primeiro da fila para fazer alguma atrocidade. A cada novo recorte do passado que nos é apresentado pela história, a perturbação do protagonista parece mais clara e justificada. Eu cheguei até a pensar que ele suportou essa situação por tempo demais e enxerguei certa perseverança naquele pobre homem. Na verdade, ele não é tão pobre assim, nem financeiramente e nem digno de pena, talvez um pouco, já que não posso negar que me compadeci da situação dele em várias partes. E esse sentimento de que Jörgen já deveria ter perdido as estribeiras há algum tempo é que dita a tensão do clima da história.

Em segundo lugar, acho importante falar da escrita detalhada de Grunberg. Embora as descrições de cenários e pessoas também sejam ricas, é na vida interior dos personagens, sobretudo na de Jörgen, que a mágica da escrita está. As várias passagens em que nos sentimos como se estivéssemos acompanhando os bastidores das decisões do protagonista são impressionantes, entretanto essa mágica,que retrata tão ricamente o psicológico dos personagens, pode parecer uma maldição para algumas pessoas. Ela faz com que o desenvolvimento da história seja lento e em alguns momentos ate mesmo cansativo. Há quem diga que isso é um problema, mas eu já abandonei a ideia de que livros lentosg anham um ponto desfavorável instantaneamente. É claro que vencer a lentidão vai demandar uma paciência extra durante a leitura, mas não é, de forma alguma, algo que desmereça o livro. Esse detalhamento psicológico não está ali apenas por capricho do autor ou só para deixar a leitura arrastada, é esse conhecimento sobre as motivações dos personagens que intensifica a sensação de que uma atitude desesperada pode vir de quase qualquer um e molda o clima de que na próxima página pode acontecer um pequeno apocalipse .

A história de Tirza tem como estopim a festa de despedida da própria Tirza. Ela decidiu fazer uma viagem pela África com o namorado e uma festa de despedida foi organizada na casa dela. À medida que os preparativos e a própria festa vão se desenrolando, porções decisivas do passado de Jörgen, pai de Tirza, e dos outros familiares, a irmã e a mãe, vão surgindo. Cada um desses flaskbacks vai colorindo a situação crítica que apenas é vislumbrada a partir da trama que está se desenvolvendo no presente. É o passado que vai preenchendo as lacunas e adensando a previsão de que Jörgen vai explodir e sujar tudo a sua volta de sangue e miolos.

Lendo as atualizações que fiz no histórico de leitura do Skoob, vejo que fiquei bastante impactado com várias coisas que aconteceram. Agora, elas não me parecem tão chocantes, mas sem dúvidas são inesperadas. Elas acontecem em sucessão, quando aparece algum trecho sobre algum acontecimento do passado, você já pode esperar que vai vir mais uma desgraça da vida do Jörgen. Repito, a vida dele é bem desgracenta, mas ele não é santo. Ele acaba tomando atitudes muito estranhas (para não dizer irracionais) diante das coisas que lhe aconteceram. Percebe-se uma forte influência de uma preocupação doentia com as aparências na postura dele. O que o mundo vai pensar? O que os vizinhos vão pensar? O que minha família vai pensar? E essa preocupação acaba por fazer com ele acumule todos os medos, incertezas, inseguranças, desaforos, humilhações e, diante de tanto caos interior, enlouquecer parece a solução mais racional.




Título: Tirza
Título Original: Tirza
Autor: Arnon Gunberg
Tradução: Mariângela Guimarães
Editora: Rádio Londres
Páginas: 501
Ano da edição: 2016
Compartilhe: