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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

No Uai Lipe: Coisas de 2018



Quase um ano de blog. É assustador pensar o quanto o tempo passou rápido e na forma tortuosa como a vida nos trouxe a 2019. Apesar de, em algumas vezes, sentir como se estivesse escrevendo apenas para mim mesmo, o blog cumpriu com excelência a tarefa de fazer com que eu conhecesse mais a mim mesmo e pudesse "falar"sobre coisas que amo (mesmo que não tenha muitas pessoas lendo). Mesmo me frustrando algumas vezes por não conseguir produzir conteúdo no ritmo em que gostaria, o Uai Lipe soube como dosar a cobrança e o incentivo, o que me fez trilhar, sobre livros, filmes, séries e reflexões, um 2018 muito interessante. Talvez, a trilha de 2018 não tenha sido mais produtiva ou valorosa do que a dos outros anos, mas o  blog possibilitou que eu tivesse um pouco mais de consciência daquilo pelo que passei. Pesquisar mais sobre os livros que li, sobre os autores, registrar as minhas impressões no blog, fez com que minhas leituras fossem mais significativas. Lembro-me com mais propriedade dos livros que li neste ano e isso é muito recompensador.

Vencido a debilitante melancolia e nostalgia do fim de ano, sinto-me capaz de refletir sobre as conquistas e as frustrações que aconteceram neste blog em 2018.

Em primeiro lugar, uma conquista que me deixa muito satisfeito, foi a maratona do Oscar. Consegui assistir a todos os indicados na categoria de melhor filme e escrever sobre quase todos (7 dos 9). E fiz tudo isso antes mesmo da noite de premiação! Foi uma experiência que quero repetir para sempre e a cada ano. Espero que neste ano eu consiga também assistir a todos os indicados e, dessa vez, consiga escrever comentários sobre cada um.

Em segundo lugar, está o ambicioso projeto de leituras de 2018. Nesse caso, foi um misto de sucesso e fracasso. consegui cumprir a leitura da maior parte dos livros propostos, mas alguns importantes ficaram de fora. Fiquei devendo: um livro do Dostoiévski (apesar de ter lidos umas 10 páginas de Crime e Castigo, não continuei); a tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos (desculpe, Zafón); O Livro do Juízo Final da Connie Willis (saber que esse livro faz parte de uma série e a enxurrada de críticas negativas me desmotivaram); a conclusão da trilogia do Mar Despedaçado, com o livro Meia Guerra do Joe Abercrombie (eu tentei e tentei e tentei, mas meu espírito não estava para fantasia, infelizmente); a graphic novel Habibi do Craig Thompson (ela está na minha mesa, mas não foi a hora dela); a continuação da minha leitura de Sandman e a leitura de Promethea (espero que eu não tenha pesadelos) e, por fim, a leitura de Atlas de Nuvens do David Mitchell. Talvez, eu devesse ficar triste por causa de tantas dívidas comigo mesmo, mas não estou. Dessa vez, surpreendentemente, a satisfação foi maior do que o peso das derrotas.


Os dois grandes fracassos vêm em terceiro lugar. A leitura conjunta de Wicked, que ficou até sem um desfecho no blog, e a leitura do livro Histórias para Crianças do Issac Bashevis Singer. Embora eu tenha terminado a leitura de Wicked no prazo e cumprido o cronograma, os outros participantes desistiram e não terminaram a leitura (apenas o Matheus conseguiu chegar até o fim, mas com algumas semanas de atraso). Tenho que admitir que o livro, apesar de ter momentos muito interessantes, não faz jus a tudo o que eu havia lido, assistido e ouvido acerca dessa história. Elfaba, desculpe, mas seu livro não é bom. Senti o impacto desse fracasso, e até um pouco de culpa, mas superei e já estou querendo o volume 2 de Wicked (mentira!). Já a leitura de um conto por dia do livro do Bashevis foi um fracasso daqueles que vai fazer com que eu me torne um fantasma e venha assombrar as pessoas, caso eu não termine esse livro neste ano. Li poucos contos e acabei deixando o livro para lá. Uma das razões para que isso tenha ocorrido, além da minha pura e simples falta de foco, foi a minha decepção com alguns contos. Parte deles é muito simples, repetitiva e parece ter sido escrita para ser ouvida e não lida. Sim, mais dois fracassos vergonhosos para a conta de 2018.


Outro fracasso foi eu não ter conseguido lidar com minha lista de TV, com séries e animações. Eu simplesmente não soube como manter essa lista atualizada e acabei deixando ela de lado na maior parte do ano. Embora ela continue no menu do blog, o que está listado ali não condiz com tudo o que assisti em 2018. Já as listas de leituras e filmes estão plenamente atualizadas e lindas, amém. Espero que neste ano eu possa encontrar uma forma de manter a lista de TV atualizado e operante.

Gostaria de comentar também sobre as postagens de que mais me orgulho de ter feito. Em primeiro, a postagem "Lembra do Realismo Fantástico?". Ela me deu um trabalho muito gostoso para escrever e fez com que eu me lembrasse de livros que li há bastante tempo e de incluir alguns livros e autores, que estavam esquecidos, na minha lista de quero ler. E o livro de um desses autores, uma autora, na verdade, foi a minha melhor leitura do ano. Apesar de eu não ter conseguido fazer uma postagem que fizesse jus ao quanto amei A Casa dos Espíritos, preciso deixar claro que eu gostei, adorei esse livro. Sou muito criterioso para marcar um livro como favorito no Skoob, tenho apenas 2 favoritados lá e há muito tempo A História Sem Fim foi meu único livro marcado como favorito, agora, A Casa dos Espíritos também está lá com seu coraçãozinho. Outra postagem de que gostei de fazer foi a de "7 filmes em 1 semana". ao longo de uma semana vi 7 filmes dos anos 80 e 90 junto com alguns amigos do facebook. Foi uma experiência legal rever ou conhecer esses 7 filmes e escrever pequenos textos sobre cada um deles.



Espero que em 2019 este blog continue sendo meu companheiro e que eu possa repetir o que me trouxe satisfação, encontrar novas formas de sucesso e transformar os fracassos em combustível para novos acertos. Foram 35 postagens publicadas, algumas ficaram só no rascunho, e desejo que em 2019, eu possa fazer ainda mais. Certamente haverá outra maratona do Oscar e, em alguns dias, o projeto de leituras 2019 aparecerá por aqui.

Sejamos felizes!


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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Nas Páginas: Tirza - Arnon Grunberg


Tirza foi minha terceira leitura da editora Rádio Londres. A capa segue o mesmo padrão de Stoner e antes mesmo da leitura, já imaginamos o protagonista Jörgen com o rosto que estampa a capa. Já recebemos uma espécie de prévia do protagonista, uma amostra não muito confiável, afinal de contas, não temos certeza se é o Jörgen  mesmo que está ali. Ainda assim, é incontrolável fazer apostas sobre a personalidade dele a partir da capa. Seria Jörgen um nerd frustrado? Seria ele um erudito? Mesquinho? Invejoso? Triste? Medroso?

Passadas minhas indagações acerca da capa, que vieram antes de eu ter o livro em mãos, na minha onda de comprar livros da Rádio Londres, não pude deixar Tirza de fora da minha vida, ainda mais que ele havia sido relançado com uma edição revista e com acabamento em capa-dura. Comprei e já dei um jeito de colocá-lo no projeto de leituras para 2018 (não queria que ele escapasse de forma alguma). Pois bem, em alguma semana perdida de Julho, eu li Tirza.

Em primeiro lugar, gostaria de comentar sobre o clima da história. Há durante todo o livro uma atmosfera de tensão. Não uma tensão qualquer, mas um clima de que qualquer um dos personagem vai perder a cabeça e fazer alguma coisa terrível mais cedo ou mais tarde. Entre eles, Jörgen é o primeiro da fila para fazer alguma atrocidade. A cada novo recorte do passado que nos é apresentado pela história, a perturbação do protagonista parece mais clara e justificada. Eu cheguei até a pensar que ele suportou essa situação por tempo demais e enxerguei certa perseverança naquele pobre homem. Na verdade, ele não é tão pobre assim, nem financeiramente e nem digno de pena, talvez um pouco, já que não posso negar que me compadeci da situação dele em várias partes. E esse sentimento de que Jörgen já deveria ter perdido as estribeiras há algum tempo é que dita a tensão do clima da história.

Em segundo lugar, acho importante falar da escrita detalhada de Grunberg. Embora as descrições de cenários e pessoas também sejam ricas, é na vida interior dos personagens, sobretudo na de Jörgen, que a mágica da escrita está. As várias passagens em que nos sentimos como se estivéssemos acompanhando os bastidores das decisões do protagonista são impressionantes, entretanto essa mágica,que retrata tão ricamente o psicológico dos personagens, pode parecer uma maldição para algumas pessoas. Ela faz com que o desenvolvimento da história seja lento e em alguns momentos ate mesmo cansativo. Há quem diga que isso é um problema, mas eu já abandonei a ideia de que livros lentosg anham um ponto desfavorável instantaneamente. É claro que vencer a lentidão vai demandar uma paciência extra durante a leitura, mas não é, de forma alguma, algo que desmereça o livro. Esse detalhamento psicológico não está ali apenas por capricho do autor ou só para deixar a leitura arrastada, é esse conhecimento sobre as motivações dos personagens que intensifica a sensação de que uma atitude desesperada pode vir de quase qualquer um e molda o clima de que na próxima página pode acontecer um pequeno apocalipse .

A história de Tirza tem como estopim a festa de despedida da própria Tirza. Ela decidiu fazer uma viagem pela África com o namorado e uma festa de despedida foi organizada na casa dela. À medida que os preparativos e a própria festa vão se desenrolando, porções decisivas do passado de Jörgen, pai de Tirza, e dos outros familiares, a irmã e a mãe, vão surgindo. Cada um desses flaskbacks vai colorindo a situação crítica que apenas é vislumbrada a partir da trama que está se desenvolvendo no presente. É o passado que vai preenchendo as lacunas e adensando a previsão de que Jörgen vai explodir e sujar tudo a sua volta de sangue e miolos.

Lendo as atualizações que fiz no histórico de leitura do Skoob, vejo que fiquei bastante impactado com várias coisas que aconteceram. Agora, elas não me parecem tão chocantes, mas sem dúvidas são inesperadas. Elas acontecem em sucessão, quando aparece algum trecho sobre algum acontecimento do passado, você já pode esperar que vai vir mais uma desgraça da vida do Jörgen. Repito, a vida dele é bem desgracenta, mas ele não é santo. Ele acaba tomando atitudes muito estranhas (para não dizer irracionais) diante das coisas que lhe aconteceram. Percebe-se uma forte influência de uma preocupação doentia com as aparências na postura dele. O que o mundo vai pensar? O que os vizinhos vão pensar? O que minha família vai pensar? E essa preocupação acaba por fazer com ele acumule todos os medos, incertezas, inseguranças, desaforos, humilhações e, diante de tanto caos interior, enlouquecer parece a solução mais racional.




Título: Tirza
Título Original: Tirza
Autor: Arnon Gunberg
Tradução: Mariângela Guimarães
Editora: Rádio Londres
Páginas: 501
Ano da edição: 2016
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Nas Páginas: Zero K - Don Delillo


Don Delillo é um autor americano contemporâneo com bastante notoriedade por essas bandas. Depois de ver comentários sobre ele aqui e ali, decidi que incluiria um livro dele no meu projeto de leituras pra 2018. Como minhas compras de livros são movidas por promoções, decidi que meu primeiro livro dele seria Zero K, que estava com o preço mais em conta, embora eu quisesse muito ler Ruído Branco. Já que o destino (e as promoções) quiseram assim, comecei a leitura de Zero K

Esse livro tem como pano de fundo uma instituição misteriosíssima que desenvolve um procedimento em que o corpo de uma pessoa é congelado (o título do livro vem daí, zero k, o zero absoluto) para que ela possa ressurgir no futuro, seja em um momento em que já exista uma cura para a doença que levaria essa pessoa à morte ou simplesmente para que ela possa ultrapassar a validade de nossos corpos humanos e viva no futuro, que seria impossível de alcançar segundo nossa expectativa de vida. Com esse contexto, acompanhamos Jeffrey em sua estadia no prédio pouco convencional dessa instituição para apoiar a mulher de seu pai que passará pelo tal processo. Com essa premissa principal, Zero K é muito mais sobre os anseios, inseguranças e dúvidas de seus personagens do que sobre a história de alguém que vai acompanhar uma pessoa próxima durante o procedimento de congelamento. Na verdade, creio que todo esse contexto ou a trama dos personagens são uma espécie de estopim para desencadear as reflexões que ocupam grande parte do livro.

Enquanto está na instituição, Jeffrey confronta diversas questões que são suscitadas pelas implicações desse procedimento. Nesses momentos, Don Delillo usa toda sua habilidade retórica para nos proporcionar reflexões interessantes sobre vida e morte, sobre o tempo, sobre a mente, sobre exploração exarcebada dos recursos naturais, entre vários outros temas. Para mim, esse desfile de reflexões acabou por ofuscar a história e os desdobramentos que os acontecimentos poderiam ter. Algumas reflexões, embora impulsionadas pelo momento delicado pelo qual os personagens estão passando, me pareceram um pouco avulsas. 

Gostaria de pontuar algumas questões que são bastante interessantes. A primeira diz respeito ao prédio, à estrutura em que a instituição funciona. O próprio prédio, sua organização e localização, parece constituir uma espécie de metáfora do próprio procedimento que é desenvolvido dentro dele. Aquele lugar parece uma cápsula do tempo, uma cúpula que isola o que estiver dentro dela do mundo, da humanidade; eu diria mais, diria que aquele prédio é capaz de separar as pessoas do tempo e do espaço. Seria isso uma tentativa de fazer com que todos que estão ali experimentem uma sensação semelhante a daqueles que se submetem à suspensão criogênica? Lá, há novas regras, novas intenções, como um pequeno mundo que não pertence à via láctea, mas a um universo quase inteiramente novo, como se tivesse sido moldado sob preceitos estéticos, éticos e morais próprios e propícios aos objetivos da instituição. Outra questão interessante diz respeito ao momento em que a mente de Artis, a esposa do pai de Jeffrey, está separada de seu corpo, e desenvolve um diálogo consigo mesma. Mas será mesmo um diálogo? Uma mente absolutamente sozinha, sem seu próprio corpo, seria capaz de dialogar consiga mesma? A mente de Artis questiona aspectos básicos do ser. Quem será ela? Aquela mente é ela mesma? Aqueles pensamentos são ela? Ela continua sendo a mesma? 

Minha experiência com Zero K foi positiva, no entanto, acredito que a história e as reflexões poderiam ter sido orquestradas de forma mais homogênea. Senti como se a história existisse ali apenas para engatilhar as reflexões. Para mim, as reflexões deviam servir à história e não o contrário. Também gostaria de reclamar do tamanho das reflexões e explicações que, além de serem numerosas, são longas, e chega a um ponto em que você pensa que são intermináveis. Don Delillo, ainda espero ter uma experiência inteiramente positiva com você. Que venha Ruído Branco!




Título: Zero K
Título Original: Zero K
Autor: Don Delillo
Tradução: Paulo Henriques Britto
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 272
Ano: 2016
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Nas Páginas: A Casa dos Espíritos - Isabel Allende



Gostaria de fazer algo especial para A Casa dos Espíritos, no entanto, não consegui pensar em algo que me agradasse ou que tivesse à altura do livro, por isso, corri o risco de me tornar um fantasma ao deixar esse assunto pendente. Isso não poderia ter acontecido! A Casa dos Espíritos é o livro de que mais gostei dos últimos tempos e até recebeu uma estrelinha de favorito (está ao lado do intocável A História Sem Fim). Então, para não deixar esse livro incrível sem um texto aqui, decidi escrever algo mais simples sobre ele. É melhor algo mais simples do que nada, né?

Pois vamos lá. Em A Casa dos Espíritos acompanhamos três gerações de uma família e são as mulheres que conduzem o viés dessa história (embora o patriarca Esteban Trueba também tenha sua devida parte). Em primeiro lugar, temos Clara del Valle que é a matriarca e o poderoso alicerce de toda a história. É ao redor dela que a mágica dessa história acontece. Clara é uma mulher forte, mas que vive dividida entre esse mundo em que vivemos encarcerados e um mundo que nos é raramente permitido vislumbrar. São vários os momentos em que Clara nos brinda com sua excentricidade e faz das páginas desse livro muito mais do que o que está escrito nelas. Arrisco-me a dizer que ela é a imperdoável culpada por grande parte da atmosfera onírica e improvável que tanto me fascinou. Em seguida, surge o protagonismo da segunda del Valle, Blanca, a querida filha de Clara. Blanca é uma figura mais terrena. Ela não está tão conectada com o sobrenatural quanto sua mãe, no entanto, percebemos nela traços dos mistérios da família del Valle. No caso dela, eles se manifestam sutilmente. Blanca vive várias frustrações amorosas (talvez todas se resumam em apenas uma) e tem um destino sinuoso pelo qual ela parece caminhar sem saber ao certo o que está fazendo (ao contrário de sua mãe que parece saber todos os detalhes do que acontecerá). Considero Blanca, a del Valle com quem menos me conectei, embora seja impossível não se sensibilizar com os infortúnios que quase esmagam todas as suas esperanças. Por fim, como última del Valle a aparecer na história, temos Alba, neta de Clara. Alba tem os cabelos verdes como os de sua tia-avó Rosa e leva consigo o idealismo de sua bisavó, Nívea. Ela cresce em um país caótico que busca se livrar de um governo de direita opressor, do qual seu avô, Esteban, faz parte. Alba é destemida, prática e luta pelo que acredita, pelos que ama, e não poderia deixar de se envolver nesse embate político. Recai sobre Alba, o peso do passado de sua família e é por meio dela que o possivelmente detestável Esteban encontrará alguma redenção e uma porção de paz.

Gosto de pensar nas mulheres dessas três gerações como facetas de um único ser. Clara representaria o lado espiritual. Sua ligação com o místico, seus poderes de clarividência, a telecinese e mesmo sua presença que parece pouco pertencer a esse plano terrestre. Clara, para mim, é a conexão com algo maior, com a magia. Percebemos isso na própria história, fica evidente que os elementos fantásticos quase desaparecem depois da morte de Clara, depois que ela decide morrer. Clara é o espírito. Na outra faceta, temos Blanca que representa o corpo. Blanca se entrega desde jovem a uma paixão desenfreada que ultrapassa todos os obstáculos que o mundo (pode-se entender que, quando digo mundo, estou querendo dizer Esteban Trueba) impõe a esse amor, a essa paixão. Blanca se satisfaz com a paixão, com o amor terreno, o amor dos homens (ou de um homem só). Ela é simples, está ali para viver o mundo, seus desejos e anseios são diretos. Por isso, digo que Blanca é o corpo. Por fim, completando essa trindade, temos Alba que ocupa a faceta da razão, da mente. Alba é aquela que racionaliza a história de sua família; que, na medida do possível, repreende seu avô; é aquela que luta por seus ideais; é aquela que não só enxerga problemas, mas que também busca soluções. Assim, Alba representa a mente. As três gerações del Valle: espírito, corpo e mente.

Obviamente estou sendo injusto com esse livro, já que enxergo nele centenas de outros pontos e questões que poderiam render reflexões muito interessantes, como o golpe militar Chileno que dilacerou o país, as relações dos vários personagens que permeiam as vidas dos del Valle (eu preciso mencionar a Férula Trueba, Barrabás, Nicolas e Jaime, os Pedros Garcia, são muitos e incríveis), as aventuras sobrenaturais de Clara, os desalentos amorosos. É um livro maravilhoso. Sou muito grato por ter lido essa história e agora  uma parte do meu coração pertence à Isabel Allende e à família Del Valle.



Título: A Casa dos Espíritos
Título Original: La Casa de los Espiritus
Autora: Isabel Allende
Tradução: Carlos Martins Pereira
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 448
Ano: 1982
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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Nas Páginas: O Dragão Renascido - Robert Jordan (A Roda do Tempo Vol. 3)



O terceiro volume da série A Roda do Tempo parece o último livro de uma espécie de trilogia dentro da saga. Uma trilogia que narra o processo de descoberta, aceitação e, por fim, confirmação de que Rand Al'thor é o Dragão.  É nesse livro que temos uma visão mais ampla dos principais acontecimentos dos outros volumes e, a partir de uma perspectiva posterior aos fatos e já conscientes de alguns caminhos pelos quais a história seguirá, podemos atribuir novos significados às sensações e emoções que tivemos ao acompanharmos aquelas jornadas de perto. Além de proporcionar uma ressignificação do que já aconteceu, O Dragão Renascido desenvolve e acrescenta elementos importantes à trama. Nesse livro enxergamos mais claramente as contribuições dos diversos personagens para a ascensão do Dragão, que, agora, parece de fato ser o elemento norteador da saga até aqui. Ao evidenciar a jornada em prol do renascimento do Dragão, as histórias dos outros personagens principais é habilidosamente ampliada, e vemos um delinear instigante das trajetórias pessoais dos outros protagonistas, que, em muitas situações, são tão interessantes quanto a do próprio Rand.


Gostaria de falar um pouco dos quatro focos narrativos que temos no livro. Inicialmente temos duas perspectivas, a das pessoas que ficam no acampamento, ao lado de Rand após o conflito em Falme (ocorrido em A Grande Caçada), e as que partem para Tar Valon. No entanto, há outra divisão e cada um desses grupos se divide mais uma vez, resultando nos 4 focos narrativos que acompanhamos ao longo do livro. Em primeiro lugar, tratemos dos dois focos narrativos oriundos do grupo de personagens que ficaram no acampamento com Rand. O primeiro desses focos narrativos é o que acompanha Rand e sua busca semiconsciente por Callandor, a espada destinada ao Dragão renascido. No início do livro, temos um Rand amargurado pelo peso de ter se proclamado Dragão. Além disso, Rand está tentando habituar-se ao uso do poder único e à forma maliciosa como a mácula do Tenebroso o envenena sempre que toca Saidin. Todo esse conflito, somado à sensação de responsabilidade que recaiu sobre ele acerca das vidas daqueles que se declararam como seus seguidores e à influência do Tenebroso por meio de sonhos e visões, Rand parece estar por um fio de mergulhar definitivamente na loucura. Será essa loucura o resultado das vezes em que ele deixou-se contaminar pela mácula de Saidin? Então, em meio a esse conflito esmagador, Rand entrega-se ao chamado de Callandor. Movido por um misto de obsessão e da vontade de provar-se ou ser rejeitado de uma vez por todas como Dragão, Rand abandona seus amigos e a comitiva que o acompanha, e dá início a uma longa e turbulenta viagem, assombrada por visões e sonhos com o Tenebroso, à Tear, onde está a espada.

O segundo foco narrativo se refere aos companheiros de Rand que decidiram ir atrás dele, após sua fuga furtiva. Nesse grupo estão Moiraine, Lan, Loial e Perrin, que assume o papel de protagonista. Nesse foco narrativo, aparecem duas questões importantes. A primeira é sobre a descoberta e desenvolvimento da ligação de Perrin com Tel'aran'rhiod, devido à sua relação com os lobos. Perrin descobre que é capaz de acessar esse mundo dos sonhos, mesmo sem compreender o processo e sem saber exatamente o que ele é. Em Tel'aran'rhiod, Perrin tem por guia o lobo Saltador que morreu em um embate em O Olho do Mundo. Nessas incursões na dimensão dos sonhos, Perrin acaba por descobrir informações importantes que, para nós leitores, vão se juntando a outros fatos ocorridos com outros personagens, como Mat e Rand, mas que, para Perrin, acabam não fazendo tanto sentido (como as questões envolvendo Selene/Lanfear). A segunda questão importante trata do aparecimento de novos elementos que compõem o séquito do Tenebroso, como os Homens Cinzas, os Cães das Trevas e a revelação de mais Abandonados que, inclusive, já estão há algum tempo conquistando mais poder político. Frente aos novos conflitos diretos que surgem, especialmente contra os Cães das Trevas, vemos demonstrações majestosas do domínio de Moiraine sobre o poder único e das habilidades de Lan como batedor e guerreiro. Os combates são decisivos e as coisas começam a sair do controle, pela primeira vez, pude sentir de fato que o Tenebroso está um passo a frente dos nossos heróis. Em algum momento desse foco narrativo, temos a introdução de uma personagem importante, sobretudo, para a história de Perrin, Zarine (ou Faile, que significa falcão e faz dela uma das fortes candidatas a se tornar um dos falcões com que Perrin tem sonhado), uma caçadora que está em busca da Trombeta de Valere e de algum modo, ao meu ver um modo um pouco obscuro, intuiu que os quatro viajantes poderiam lhe levar, ou pelo menos dar alguma pista, acerca do paradeiro da Trombeta.


Agora tratarei dos dois focos narrativos que surgiram do grupo que partiu rumo à Tar Valon. Nesse foco narrativo temos Elayne, Nynaeve e Egwene, que assume o protagonismo. No A Grande Caçada, as garotas haviam fugido de Tar Valon e seu retorno significaria um acerto de contas e a retomada de seu treinamento como Aes Sedai. Nesse foco narrativo, temos três pontos importantes. O primeiro trata do tom investigativo dado a essa perspectiva. A Amyrlin acaba por atribuir à Nynaeve e Egwene a tarefa de encontrar as Aes Sedai que rebelaram, assassinaram suas irmãs, roubaram vários ter'angreal e se declararam como sendo apoiadoras do Tenebrosa, ou seja, da Ajah Negra. As meninas deveriam investigar as próprias irmãs Aes Sedai, para identificar alguma outra traidora, e, sobretudo, encontrar pistas e localizar as doze traidoras, aparentemente, lideradas por Liandrin. Essa investigação é que faz com que as garotas sigam os rastros da ajah negra até Tear (parece que tudo está conduzindo até Tear, num é mesmo?). A segunda questão é sobre o desenvolvimento do domínio das garotas sobre o poder único e da evolução delas em seu treinamento como Aes Sedai. Egwene avança em seu treinamento como Sonhadora e consegue entrar no Tel'aran'rhiod com a ajuda de um Ter'angreal. Nesse ponto temos uma junção com a narrativa de Perrin e, mesmo não tendo conhecimento um do outro, ambos estão explorando a dimensão dos sonhos. Na verdade, é com Egwene que temos uma visão mais clara do que é Tel'aran'rhiod, do funcionamento desse mundo e de suas propriedade (e é incrível). Sobre Nynaeve, embora tenha um poder excepcional, ela continua com a limitação de só conseguir canalizar quando está nervosa, e isso acaba sendo um grande empecilho e até mesmo motivo de algumas piadas por parte de suas amigas. Elayne parece ser a que possui o domínio de Saidar mais equilibrado, forte e sem limitações, como a de Nynaeve. Elayne se destaca pelo seu conhecimento acerca do mundo, sobre seus povos, suas nações e conflitos. Sabemos que nesse sentido o conhecimento dos ex-moradores de Campo de Elmond é bastante limitado. Por fim, o terceiro ponto, que trata das conexões e da ampliação do universo que essa narrativa nos proporciona. Saber mais sobre Tar Valon e as Aes Sedai sempre foi um dos meus maiores desejos desde O Olho do Mundo. Aos poucos, essa narrativa começa a nos revelar vários desses segredos, dando continuidade aos que haviam aparecido em A Grande Caçada. Vemos novas formas de manifestar o poder único, vemos o cotidiano em Tar Valon, conhecemos novas Aes Sedai e nos aprofundamos naquelas que já haviam aparecido, surgem novas informações sobre uma cultura que encara as mulheres capazes de canalizar de forma diferente e temos uma aproximação com os Aiel (Aviendha, guarde esse nome).  São vários os elementos que só haviam sido mencionados anteriormente  que agora são integrados à história e isso torna tudo muito interessante. 


Por fim, temos o último foco narrativo, que acompanha Mat e, posteriormente, Thom. Esse foco narrativo começa a partir de um grande evento mágico que é prometido desde O Olho do Mundo, o ritual em que as Aes Sedai retirariam a mácula de Shadar Logoth de Mat. Além de colocar Mat de volta no jogo (desculpem o trocadilho infame), e livrá-lo da maldição que o atormentava há muito tempo, esse ritual consiste, ao meu ver, em uma das cenas de canalização mais legais da saga até então. Já de posse de sua saúde, embora tenha perdido quase todas as lembranças da época em que esteve sob a influência da adaga, os serviços de mensageiro de Mat são solicitados por Elayne, Egwene e Nynaeve. Então, atendendo ao pedido de suas amigas, Mat parte para Caemlyn com o intuito de levar uma carta de Elayne para sua mãe, a rainha Morgase. No entanto, todo esse processo não foi tão simples, Mat estava sendo mantido em Tar Valon a força pelas Aes Sedai, com a justificativa de proporcinar a ele um ambiente favorável para sua recuperação plena, no entanto, sabemos que o motivo pode ser outro, afinal de contas, Mat tocou a Trombeta de Valere em A Grande Caçada. Assim, Mat precisa usar sua típica perspicácia (lábia), além de um presentinho de suas contratantes, para driblar a proibição da Amyrlin. Em sua viagem, Mat encontra Thom que, depois de ter sofrido um grande revés e estar frustrado com a vida, decide acompanhá-lo. Por ironia do destino, Mat também acaba sendo conduzido, após entregar a carta à Morgase, à Tear. Enquanto ainda está em Caemlyn, Mat faz descobertas importantes e estou certo de que isso será retomado posteriormente. Um ponto interessante dessa narrativa é que Mat começa a entender um pouco melhor sua relação com a sorte e a usá-la conscientemente a seu favor. Durante a viagem até Tear, Mat conhece uma personagem que me intrigou um pouco, Alundra, uma iluminadora. Talvez, ela possa ressurgir no futuro.


Essas são as 4 perspectivas que nos levam até o desfecho de  O Dragão Renascido. As quatro linhas narrativas convergem para Tear, onde está a espada Callandor (que apesar de ter a forma de uma espada é, na verdade, um sa'angreal muito poderoso) e Rand, caso consiga empunhá-la, terá a confirmação de que ele é o Dragão Renascido. Entre os quatro enfoques, o que acompanha Rand é o mais vago e temos apenas algumas cenas de sua jornada até Tear. Nessa jornada, Rand experimenta um pouco mais do poder único e mergulha cada vez mais na loucura, que possivelmente vem da mácula do Tenebroso em Saidin. Sobre as outras narrativas, temos um desenvolvimento muito interessante dos personagens. Podemos enxergar a devida importância de cada um na história global e como a trama de A Roda do Tempo é construída a partir da contribuição de vários personagens e que, mesmo o enredo principal sendo bastante evidenciado, as histórias individuais e os dramas pessoais são muito bem construídos e dosados. O crescimento dos outros personagens, aqui incluo Perrin, Mat, Egwene, Nynaeve e Elayne, é gratificante e consistem nas partes mais empolgantes da história. A busca de Rand por Callandor representa apenas o ponto de partida e de chegada da trama, não que isso seja pouco, mas são as aventuras, o amadurecimento e os conflitos dos outros personagem que constituem o livro propriamente dito, dessa vez, eles são os protagonistas de suas próprias jornadas.


É interessante perceber o quanto O Dragão Renascido nos possibilita enxerga a história da saga até aqui sob outra lente. Acontecimentos que, quando ocorreram, não tiveram grande impacto em mim, como o surgimento de dois Abandonados em O Olho do Mundo (Balthamel e Aginor), ou os conflitos dentro de Tar Valon, entre as próprias Aes Sedai, ou as disputas políticas entre algumas das cidades que apareceram no primeiro livro, ou a organização e amplitude das maquinações dos amigos das trevas, adquiriram novas cores. Essas questões foram modificadas e implementadas a partir do que aconteceu em O Dragão Renascido. Foi nesse livro em que pude compreender o desespero da confirmação da libertação de alguns dos Abandonados. Depois dessa leitura que compreendi que há uma teia de interesses complexa envolvendo o retorno do Dragão e que as Aes Sedai são apenas um fio dessa teia, na verdade, um fio que ainda não alcançou um consenso, e apresenta diferentes interesses em si mesmo. Foi com O Dragão Renascido que pude enxergar, finalmente, o mapa que aparece em cada um dos livros como a representação de um mundo verossímil, com disputas, alianças e particularidades culturais de cada uma de suas cidades e regiões. Nesse livro, encarei de outra forma o culto ao Tenebroso. Não são apenas Trolocs e Myrddraal, mas algo organizado, com membros poderosos e que podem estar infiltrados em contextos tidos como incorruptíveis.

Então só resta dizer que O Dragão Renascido é um ótimo livro. Um passo importante na saga e uma ampliação significativa de elementos e conflitos que só haviam sido apresentados anteriormente. Temos a introdução do Tel'aran'rhiod, que me parece ser algo que será bastante explorado, a libertação de Mat da mácula  de Shadar Logoth e a cena que decide definitivamente o destino de Rand, expurgando todas as dúvidas acerca do renascimento do Dragão. Depois de todas as aventuras pelas quais passaram, creio que é chegada a hora de os garotos de Campo de Elmond abaixar a guarda em relação ao poder único, às Aes Sedai e à Moiraine. Entendo que a negação desses elementos foi bastante forte em suas criações, mas acredito que já houve provas o suficiente para que essa cisma fosse, pelo menos, amenizada. Este é o meu desejo para o próximo livro, que os personagens amadureçam em relação a manifestações e usuárias do poder único. Que venha o A Ascensão da Sombra que e já estou ansioso. Que a vez dessa leitura chegue logo!




Título: O Dragão Renascido
Título Original: The Dragon Reborn
Autor: Robert Jordan
País: EUA
Tradução: Mariana Vollmer
Editora: Intrínseca
Páginas: 656
Ano: 2014 (originalmente em 1991)







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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Nas Páginas: Stoner - John Williams

Stoner fala de uma vida aparentemente monótona, maçante, que consiste de uma porção de dias quase exatamente iguais. No entanto, depois de lermos algumas páginas e nos colocarmos no lugar de nosso protagonista, percebemos que a vida do outro, mesmo que ela nos pareça sem graça, pode ser interessante, quando a enxergamos como se fosse a nossa própria vida. Nesse sentido, no de conduzir nossos olhos sobre a vida de William Stoner, como se ele pudesse ser qualquer um de nós, é que John Williams demonstra seu talento e faz uma espécie de mágica acontecer.
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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Nas Páginas: O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação - Haruki Murakami

Decidi que meu primeiro livro do ano e primeiro do Haruki Murakami seria O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação. Antes de iniciar a leitura, já estava intrigado sobre o que me aguardava, sobretudo,  por causa do título. Um título longo e com o nome de um personagem, provavelmente, do protagonista. Já comecei a leitura esperando que o Tsukuru fizesse uma viagem e seria uma longa peregrinação, pelo jeito. E, de alguma forma, acabei peregrinando com ele.
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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Projeto de Leitura 2018



As zebras não são animais velozes. Elas estão mais para tartarugas do que para lebres. 

Resolvi que em 2018 faria uma lista de objetivos, livros (HQs também) e autores que eu gostaria de priorizar ao longo do ano (provavelmente alguns vão ficar para os anos futuros).

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